terça-feira, 25 de outubro de 2011

plastic tramp.

o dia ia amanhecendo gelado e insuportavelmente cinza. na rua deserta só ouvia-se o “toc-toc” de um salto castigando a calçada.
ela ia andando sem pressa, sozinha, enrolada num paletó anônimo, o vestido preto e curto, feito uma viúva depravada. a maquiagem saindo, o batom vermelho quase apagado borrado, as olheiras já tomando conta do rosto jovem e pálido da moça. poderia ser um fantasma mórbido andando pela rua de madrugada, se não fosse a cor dos sapatos. de um vermelho tão intenso que ardia nos olhos aquela hora da manhã.
ela jogou o resto do cigarro no chão e atravessou a rua parada. ao mesmo tempo em que subia a calçada, ela sentiu um toque leve na sua mão. tão leve que, se não fosse a baixa temperatura contrastando com sua pele quente, talvez ela nem sentiria.

- Valentina...

ela virou-se e encontrou um James cansado, com cara de quem passou pelo menos umas 3 noites em claro. mas lindo. lindamente gelado e cinza, feito o dia.
Valentina não sabia exatamente o que pensar. aliás, o que sentir.
fazia tanto tempo. havia acontecido tanta coisa. era outra Valentina. era outra história. James aparecendo assim só fazia destoar com todo o ritmo novo que sua vida tinha agora, desde que saíra da casa de Alexander.

- você... você está bem ?

bom. se ela estava bem agora, é sinceramente um mistério. de qualquer jeito, ela andava bem. andava muito bem. não que não amava mais James. ela não saberia dizer, na verdade. pensava nele. mas era aquela coisa escorrida. incômoda por ainda estar lá. pegajosa. nauseante. moribunda.

- como você tem andado ? me responde. soube de umas coisas suas... você... você está feliz ?
- eu estou bem.

ele sabia que não devia ter ido atrás dela, pra começo de conversa. ia totalmente contra os seus princípios. sem contar, que provavelmente Valentina, agora, o detesta.
provavelmente. aparentemente ?
sua vaidade é que tinha o feito ir até ela.
vaidade. saudade ?

- eu também estou bem. me separei não faz muito tempo.
- Aileen era sua cópia na forma feminina. principalmente nos defeitos. vocês nunca dariam certos juntos.
- me responde: você está feliz ?

ela poderia gritar que era a mulher mais feliz do mundo. ela poderia gritar pra ele ir embora e deixa-la continuar sendo a mulher mais feliz do mundo em paz.

- estou.
- que bom... eu sempre quis que você fosse feliz, Valentina.
- eu não te amo mais, então não há mais razão das mentiras só pra me satisfazer, James.
- na verdade eu sempre quis te ver feliz.
- o que você quer ?
- te ver feliz.
- o que você quer ?
- te fazer feliz.
- esqueça. isso não existe. eu não sou mais aquela Valentina de amores e descontroles. não mais a tua Valentina. vai embora.

a voz dela era fria. orgulhosa. James via uma máscara definitivamente hostil cobrindo seu rosto. os olhos negros brilhando de uma forma quase que doentia, sentindo prazer em encara-lo depois de tanto tempo.

- tua voz antes era de flores. até mesmo as lágrimas eram feito pétalas. você toda era de flores. flores irrecuperavelmente agressivas. agora tua primavera foi embora e só ficou esse teu olhar selvagem, cruel.
- só o amor me trás lágrimas aos olhos e, ultimamente, eu venho me esquecendo como se faz pra chorar.
- dia desses eu achei cabelos ruivos e encaracolados nuns lençóis guardados no fundo do meu guarda-roupa.
- e daí ?
- e daí que você não tem o direito de largar teus cabelos vermelhos pela minha vida e depois simplesmente desaparecer.
- você largou teu frio na minha vida, desapareceu e eu não fui atrás pra te cobrar nada.
- você não consegue ser fria, Valentina.
- a tua Valentina é que não conseguia ser fria.
- você ainda é minha.
- eu nunca fui tua realmente. teu ego nunca deixou.
- eu não tenho mais ego.
- eu não quero ser tua.
- eu quero ser teu.
- eu já tenho outro.
- outro. não eu.
- eu não te quero.
- quer.
- eu não te amo mais.
- mas eu te amo.
- você não ama.
- do mesmo jeito que deixastes teus cabelos, deixou também teu calor.
- tarde demais.
- eu te amo, Valentina.
- tarde demais. acabou ? eu preciso voltar pra casa.
- deixa eu te levar até lá.
- minha casa agora é o coração dele.
- vem pra minha casa.
- James. acabou. vai embora. desaparece.
- como faz pra desaparecer se eu agora trago amor dentro de mim ?
- bem-vindo ao sofrimento. essa pergunta é só o primeiro degrau. desculpa, eu já subi essa escada e estou lá em cima. não vou descer só pra te acompanhar. não vou descer só pra subir tudo de novo. não mais. não mais por você. adeus, James.






sobre o fim ser simplesmente ler Irmãos Karamazov e ser feliz, meu anjo.

4 comentários:

luis macedo disse...

;O .....

Incrivel!!!!

Virei fan kkk

parabenss!!

R.L. disse...

Isso dói.

Mariana de O. C. disse...

Valentina *-*
a tentação de escorregar pelo corrimão e subir tudo de novo, dessa vez acompanhada, é terrível. é muito mais fácil e agradável quando existe alguém pra te segurar lá em cima... e atrevo-me a dizer que somos prova disso, eu num extremo e você no outro.
como eu amo vir aqui <3333

Fil. disse...

Porra Verônica!

A tua literatura é a literatura do agora, do realm de agora. Tu promete! E não vejo a hora de saborear teus livros

(que serão picantes, serão agridoces, serão de gosto forte e diverso)

(ai eu quero te devorar toda)