domingo, 21 de agosto de 2011

O último tango da noite - II.

uma parceria com Lucas Bilk (isso não é amor, e outras histórias.), considerando que a parte I. é encontrada aqui.



Teve o dia que eu vi o que tudo aquilo significava. Disseram pra mim uma vez que ‘As histórias ruins é que são as boas’. Pra mim era só uma bobagem filosófica qualquer. Até aquele dia.

Entenda: meu pescoço ainda estava roxo da sacanagem de ontem. Não existiam fins ruins ou bons pra mim, eram só histórias, veja bem. Até aquele dia.

Parece poesia demais pro meu gosto. Era o misto de arrependimento, auto-piedade e complacência. Toda aquela merda tinha sido de vez jogada no ventilador. Eu estava suja. Eu estava marcada. Mas não era só a minha pele lacerada que me dizia isso. Eram os olhos vermelhos. Era o cabelo bagunçado. Eram as roupas esquecidas no chão. Merda. Eram todas as lembranças espalhadas pela casa. Era o teu cheiro impregnado em minha alma. Era a tua tempestade indo embora e deixando só os destroços jogados calmamente pelo soalho de madeira. E como eu odiava aquele soalho de madeira. Eu vivi demais em você, esse era todo o problema. Eu desejei demais um futuro que talvez nunca nos coube pertencer. E eu só consegui ganhar consciência disso quando a porta se fechou enquanto o guarda-roupa inesperadamente ficou vazio. Odiosamente vazio. E eu encontrei rabiscado na parede: ‘As histórias ruins é que são boas’. Como é que você achava que eu iria reagir quando visse isso? Eu ainda vejo as letras vermelhas quando fecho meus olhos. Rabiscadas às pressas. O lápis caindo no chão de madeira. O som da porta se abrindo e você indo embora com um pedaço da minha história.

Foi aí que ela começou a ficar ruim. Ou boa.

Os sons da noite anterior ainda ecoavam pelas paredes. Os urros de prazer que talvez, quem sabe, os vizinhos não ouviam. Os estalos das palmadas. As risadas. Uma taça que se quebrou no chão. Depois era só silêncio. Dois corpos dormiam exauridos de toda a energia. Quando o sol bateu no meu rosto eu acordei e ouvi apenas o silêncio. Não tinham mais as nossas vozes, não havia mais o timbre grave e constante da tua voz. E agora eu só ouço meus socos na parede. Os meus soluços. Meu coração acelerado parece querer sair pelo peito. Eu vi aquilo na parede e fiquei com raiva. Quis arrancar, chorava, quis destruir. Gritava teu nome te procurando pela casa. Arranhava a parede tentando tirar os rabiscos vermelhos. Agora eu só tinha unhas quebradas. A maquiagem borrada. Uma grande mancha vermelha e um “Ruins” escrito na parede. E o tango. O seu maldito tango ecoando pelas paredes agora geladas de desespero do meu coração. Aquela voz grave como um trem que cantava alto no final das tardes e fazia os móveis vibrarem quanto estava por perto. Cantava as canções de Noel, os sambas do Chico, e o tango. AH! O tango. Acompanhava o disco de Carlos Gardel só para me fazer companhia. Quando eu me sentia sozinha lá estava o disco tocando. A voz grave que bem de pertinho vinha me acariciando o corpo todo. O ar quente que saia da tua boca arrepiava os pelos da nuca. E quando a voz grave falava bem devagar no pé do ouvido, estremecia-me inteira. Acompanhava o timbre da voz, me esticava, sorria e te beijava. Era o êxtase. Era a sua barba por fazer que eu ainda sentia acariciando o meu amor, o meu tesão, a minha vida toda que começou só quando você chegou. Era esse nosso amor intelectual. As conversas imbuídas com puro sarcasmo e ironia. Você era sempre um desafio pra mim. Eu nunca soube quando você estava mentindo, quando você estava me desafiando, ou quando você era você mesmo. Você foi o meu desafio. Os sorrisos de mentira. As piscadas maliciosas. E o teu olhar. Você me enlouquecia com seus olhares inocentes entre todas aquelas atitudes egocêntricas e charmosas. Merda. Ainda me enlouquece. Você foi tudo o que eu era e quis algum dia ser. Até essa sua partida: eu era quem devia ter escrito isso na parede. Não era pra ter feito todo o estrago que fez. Eu sabia que perderia se entrasse nesse jogo. E mesmo assim eu entrei. E mesmo assim eu perdi, só ridiculamente encantada com os seus versos melancólicos e perdida na porra louca da luxuria irracional que você fazia nascer em mim. Eu me sentia poderosa do seu lado. Uma verdadeira vagabunda digna de toda a sua canalhice.

Noite passada eu quis que você engolisse minha presença. Me marcasse sem volta na tua pele. Eu quis nos eternizar em nossos beijos, nossos gemidos, no nosso amor louco, latente, lá, sempre presente, que só precisou de uma faísca pra arder selvagem e fora de controle.

Me encarei no espelho. Nunca fiquei assim, as íris cinzentas berrando naquele mar vermelho. Não era a saudade. Eu não tive tempo pra sentir saudade. O problema foi simplesmente acordar depois de toda a minha exaltação e perceber que eu estava sozinha. Não era amor, era simplesmente a falta. Foi tudo rápido demais. Em um momento eu estava gritando de prazer. No outro eu estava dormindo feito um bebê. E aí eu acordo e vejo que tudo aquilo não era mais real. A minha realidade havia mudado. E ele havia ido embora. Ele foi, e eu fiquei só com a minha ira. Minha ira por cortar os pés e arranhar as paredes e desejar que a noite passada fosse hoje porque um corpo simplesmente não está mais ao meu lado. Um corpo, uma voz, uma conversa existencialista no meio da fumaça dos seus cigarros. Eu sempre convivi muito bem com a saudade. Mas dessa vez era incontrolável. Eu, amarga e fora de mim, definitivamente precisava de você. Agora. Neste exato momento. Para curar os meus impulsos, para acalmar as minhas mãos que sempre tremeram pelo excesso de café.

E agora cá estou eu com os pés sangrando. Enquanto corria pela casa gritando teu nome eu pisei em uma taça espatifada pelo chão. Quem sabe esse vermelho do meu sangue não vá se misturar com o vermelho da parede. Ou quem sabe as minhas lágrimas não vão escorrer e se diluir no batom seco e borrado sobre meus lábios. Diluir. É essa a palavra. Você já estava diluído em mim. Como você acha que pode ir embora e levar tudo que é teu? Sabendo que você já era uma parte integrante da minha alma. E eu vou procurar o disco de Gardel. Eu o acho quebrado junto com a taça. Pisado. Manchado de sangue. Agora eu já não tenho mais ninguém pra compartilhar essa solidão.

Um comentário:

Isabela Nunes Costa disse...

Senti a agonia das tuas palavras. Minhas unhas doeram como se fossem as tuas quebradas que arranharam as lembranças.
Senti nos meus pés a dor do teu corte e vi no chão da minha alma esse disco quebrado com a marca da tua - e da minha - dor.