terça-feira, 4 de janeiro de 2011

the suburbs.

indecisão.

raiva, tesão, desprezo, carinho, desdém, luxuria.
ele a olhava com uma confusão de sentimentos desigual.

merda.
ele não queria ser mais um que tem uma explosão de sentimentos quando a encara. depois que ela virou a protegida de Alexander Goering, ele não tinha mais sossego; em qualquer encontro social, jantar, evento beneficiente, aniversários, confraternizações, ela aparecia.

merda.
ela era uma vadia, mas tinha classe. linda, com um vestido longo roxo, os cachos ruivos presos num penteado bem arrumado, ela parecia que sempre fora criada em altas rodas sociais, filha de figurões ricos e tradicionais. elegante, fina, com aquele sorriso arrogante que toda cria da aristocracia tinha, ela plantava inveja em todas as damas - além de indignação, "da onde aquela criatura impecável saíra ?" - e causava desconforto em todos os cavalheiros, - provavelmente antigos clientes.
e ele já estava sentindo a fúria de Aileen. não sabia o que havia dado nela; ele nunca lhe falara sobre Valentina, e mesmo assim Aileen a encarava de uma maneira assustadora, não se surpreenderia se a qualquer momento ela pulasse da cadeira e abocanhasse diretamente a jugular de Valentina. seria inveja ?! Valentina estava realmente majestosa. é, talvez fosse... mulheres.

Aileen era a representação de uma obra-prima renascentista, delicada, frágil e requintada; cabelos louros e olhos cinzentos, nariz reto, quase arrebitado, e perfeito, longilínea e de andar silencioso, era de uma beleza tipicamente nobre. se houvesse um oposto de Valentina no mundo, era Aileen: uma tinha voz firme e decidida, falava logo o que pensava e ai de alguém que a contradissesse; a outra, com voz de veludo, adulava as pessoas certas e era bem conhecida pela sua capacidade de manipulação, aos poucos, conseguindo tudo o que queria dissimuladamente. uma era geniosa, impulsiva, temperamental, irracional, intensa; a outra era fria, falsa, superficial, calculista, pretensiosa, egoísta.
vai ver por isto que eles andavam brigando; eram iguais demais. James se enxergava em Aileen e isto o irritava. casamento quase arranjado, uma junção de Goering com Doenitz, um matrimonio mais que bem-sucedido financeiramente, apoiado vorazmente pelas duas famílias, no começo ele até que conseguiu enganar a si próprio que gostava dela, mas agora não aguentava mais nem olhá-la. um sentimento mútuo, James tinha certeza; Aileen era incapaz de amar alguém.

"ora, mas se não seria meu querido irmão caçula com a mais nova sra. James Goering! como vão, meus caros ?!" exclamou Alexander, junto de Valentina e de uma grande dose de uísque escocês, quase explodindo de prazer pelo desconforto que causaria ali.
"mas vamos muito bem, claro, meu querido cunhado! mas diga-me: que deslumbrante mocinha será esta que te acompanhas ? estou simplesmente fascinada pela beleza dela, e se alguma vez a tivesse visto por aqui, eu me lembraria, com certeza.", respondeu Aileen, vestindo a costumeira máscara de etiqueta e compostura falsa.
"e nós nunca precisaríamos destes dois distintos cavalheiros para sermos apresentadas! Valentina, prazer, sra. Goering. é um verdadeiro deleite receber elogios vindo de uma mulher tão refinada e elegante como és a senhora.", retrucou Valentina, absurdamente educada, mas com uma ferocidade no olhar amedrontadora.
"Valentina... belo nome. já conheces meu marido, James Goering ? irmão de seu... hum, acompanhante ?", disse Aileen, querendo mais que tudo um contato entre James com ela, com os instintos aguçados, preparada para qualquer atitude suspeita vinda de ambos.
"acho que nunca tivemos o prazer de sermos apresentados, não é mesmo ?", escorregou Valentina, tranquila e impenetrável, estendendo a mão para James, comprimentando-o.
"acho que não. prazer.", falou James, seco, estendendo o braço num movimento quase que maquinal, sentindo a mão, depois o corpo todo, queimar quando entrou em contato com a pele dela.
"Valentina, querida. temos o aniversário do sr. Smith ainda, lembra-se ? temos que nos apreçar, se quisermos chegar a tempo. outra hora conheces melhor teu... novo amigo, meu amor." disse Alexander, tentando encerrar uma conversa que ele mesmo começou, que resultou num desconforto dele próprio, não gostando nem um pouco, e se surpreendendo por isso, daquele contato entre seu irmão e sua... nova namorada, podemos dizer.
"claro, querido, vamos sim. prazer em conhecê-los, sr. e sra. Goering.", encerrou Valentina, sorrindo como se estivesse ganhado alguma coisa, contente e eternamente linda.

e eles foram.
deixando James tonto, de tanta coisa para se entender nas entrelinhas. e era sempre tudo assim, agora que entrara de vez para este mundo de tradição e dinheiro; palavras subentendidas, atos cínicos e dissimulados. ele estava é cansado de tudo aquilo.
"vou ao toalete, certo ?", comunicou James, saindo sem esperar a resposta de Aileen.

ele passou por toda aquela gente e finalmente entrou no banheiro, vazio, limpo e claro.

James arregaçou as mangas de sua camisa, jogou a gravata para trás do ombro, abriu a torneira e lavou o rosto. e com o rosto pingando, se encarou no espelho.
meu Deus, como estava cansado.
a barba tomava conta de quase todo seu rosto, o cabelo estava um pouquinho maior que o habitual, estava mais magro e seus olhos pareciam covas escuras e profundas; não ficava sóbrio fazia um bom tempo e seu aspecto não escondia este fato. ele não parava de beber, desde que deixou Valentina. e ele nem sabia se estes dois fatos tinham alguma ligação.
"eu não amo Valentina.", determinou a si mesmo, com a voz saindo rouca pela falta de uso, fazendo ecoar entre aquelas paredes azulejadas e geladas.
e não amava. se amasse, faria de tudo para protegê-la, fazê-la feliz; e ele não fez isto. foi egoísta, frio, cruel - que novidade.

vazio.
só... o nada.
ele não sentia mais nada.

não que ele sentisse muita coisa antes; não era dado a emoções. sempre foi assim. só que o vazio de agora era muito mais sufocante que qualquer outro. e quando recordava que começou a sentir (ou não sentir) isto dentro do peito logo depois que abandonou Valentina, ele sentia um ódio incomum; tinha vontade de mata-la, excluí-la de sua mente, de sua vida. James se punha inconformado por sentir alguma coisa por Valentina, sendo bom ou ruim. as pessoas costumavam a passar por ele, pela vida dele, deixando quase nada de vestígios, ele não amava ninguém, e quando sequer considerava algum infeliz, era pelo lucro que conseguiria obter com este. e quando ela apareceu, James fez questão de determinar a si mesmo que ela seria igual aos outros, irrelevante; só pela simples vontade que Valentina tinha de causar algum tipo de sentimento em quem a conhecia. só que seus planos não saíram conforme planejara. ele sentia alguma coisa por ela. não era amor. nem carinho. era uma espécie de tesão raivoso, de querer beijá-la e depois enforcá-la. e ele queria que ela sentisse medo, terror; mas Valentina só aparecia, arrumada e deslumbrante, com seu irmão a tira-colo. ele queria matar Valentina. e depois se matar, talvez; se matar de tanto beber, comemorando toda a porra que a vida era.

James precisava de mais vida, de alguém com vida, totalmente diferente dele, com coragem, alegria, intensidade, calor, beleza, ousadia, sarcasmo, atrevimento... e só lhe aparecia Valentina na mente.
ele queria sentir aquela pele ardente sobre a sua novamente. ele queria ver aqueles olhos escuros o encarando novamente, lendo toda a sua mente, adivinhando toda a sua alma. ele queria poder abraçar novamente todo aquele corpinho voluptuoso, sentindo que a sua bonequinha voltara a ser somente dele. James queria que ela não vivesse sem ele, que implorasse pela sua volta, que se humilhasse, que rastejasse para ele ser somente dela; ele queria que Valentina o amasse e demonstrasse isto da forma mais vergonhosa e dependente possível.

só que não era bem assim; se perder em devaneios não faria muita diferença. ele pestanejaria para si mesmo durante mais alguns segundos, secaria o rosto, iria se recompor da melhor forma possível e voltaria para aquele salão, sorrindo falsamente, interpretando que tinha uma vida feliz com um casamento feliz com um trabalho feliz com uma cara feliz.

e assim foi James. desistindo de lutar antes mesmo de começar. sendo ele mesmo, frio e arrogante, se conformando rapidamente que esta historinha de final feliz com a mulher que ama servia para quem era fraco e terrivelmente emocional. sendo o mesmo racional de sempre, o mesmo hipócrita de sempre. esquecendo, enfim, que um dia já fora feliz. com alguém que o amava. muito. eternamente.


e mesmo assim, nos tratamos feito estranhos, você perde todo o encanto de um desafortunado que ainda não me conhece e eu sempre saio perdendo quando vomito minhas blasfêmias e você age com este semblante cínico e arrogante. você me enoja; mas ao mesmo tempo, me causa uma dor fora de hora.

3 comentários:

Mariana de O. C. disse...

"você me enoja; mas ao mesmo tempo, me causa uma dor fora de hora."
ME MATOU essa última frase! ;x

Mariana de O. C. disse...

voltei aqui pra te agradecer por todo apoio que você me deu, principalmente quando voce disse que o penúltimo texto que eu postei foi o melhor de todos (porque pra mim tem um significado FORTE PRA CARALHO.)
obrigada, de verdade! :*

Evelyn Colaço . disse...

Desistir sem ao menos começar... pausei em silêncio nessa frase, e a força da palavra desistir, soa como um sino dentro de mim, mais então a dor fora de hora não pode abater quem ficou forte com tantas feridas de guerra.
E então é assim que teus textos, CRLH, não canso de falar, eles me matam, porque me desvendam! e eu? Eu adooooro isso querida Veronica!
Desculpe-me a demora, tenho acompanhado sempre, mais nem sempre dá pra comentar pois estou no trabalho e quando chego em casa mal entro pois está tarde, mais espero que saiba que tenho um carinho imenso por ti.

bjs