domingo, 5 de dezembro de 2010

quem é você, afinal ?

(pra ser lido ao som de qualquer música de le fabuleux destin d'amélie poulain, de yann tiersen.)

debaixo do meu guarda-chuva eu te vi, um verdadeiro gentleman frio e impenetrável, pagando sua meretriz suja que vestia meia-calça e saltos altos. "e quando havia o brilho nos olhos, a água só ameaçava-nos; talvez agora são pedro resolveu castigar-nos, enfim". de repente cansaste de tua pequena vagabunda de mãos minúsculas e corpo quente, foi ? é, faltava uma boa dose de infelicidade naqueles olhos cheios de olheiras disfarçadas. e assim como pagastes teus cafés, como pagastes tuas tarde de sábado, como apagastes tuas feridas, devolveu-lhe o dinheiro e envolveu-a num último abraço involuntário, mas ela nunca mereceu teu respeito mesmo; e aliás, que baixaria, ela teve a coragem de aparecer por aí com as bochechas arranhadas de barbas recém-crescidas de outros idiotas, costumava chamá-la de docinho, lembra-te ? não se engane, ela é amarga, igual as lágrimas que finalmente caíram; sempre suja, esta puta astuta. não se aflija, ela voltou para aquela antiga prisão, que a tortura mais do que qualquer coisa; ela sentiu vontade de sair correndo, através daquela chuva, através daqueles corpos, através daquelas árvores, mas só a alma lhe fugiu, afinal.
com sorrisos gelados, feito cafés-com-leite desanimados, foi a nossa despedida.


debaixo do meu guarda-chuva eu a vi, tua bonequinha vulgar e ordinária, fugindo da chuva no meio daquela praça decadente e destruindo poças d'água, recebendo só aquilo que lhe cabia: olhares masculinos cheios de maldade, desejando só o corpo e ignorando a tristeza vívida daqueles olhos cheios de olheiras disfarçadas, que recebiam boas doses de mais infelicidade.

8 comentários:

Anng disse...

Lindo.
Tens um dom maravilhoso para a escrita querida.
Beijos

Mariana de Oliveira Cotrim disse...

ADORO o seu jeito 'vintage' de escrever, hahahahahah, parabéns (mais uma vez)! :*

Evelyn. disse...

Acho que é o primeiro post não tão pessoal assim, certo? Ou pelo menos um bom tanto disfarçado.
Adorei. Simplesmente.

Anônimo disse...

A dama que sofre por uma culpa de algo que não cabe a ela suportar, e a chuva poderia lhe ajudar a disfarçar as lágrimas perturbadoras.
mas no final o único homem que ela queria perturbar com suas curvas, foi o único que lhe apareceu tão frio e sem sentimentos.


Ela pode ter o mundo, mas o seu mundo não há quer.

A dor nos inspira, seus sentimentos são profundos, assim como a ferida deve ser.

bela post querida Verônica.
Voltarei logo.

Marcelo R. Rezende disse...

Gata, eu AMEI o seu texto. Que personagem gostosa. Um baixaria que eu adoro.

Beijo.

Gleice Ribeiro. disse...

Lindo! Seu jeito de escrever é tão belo, seus textos realmente encantam.

Yohana d'Arc disse...

Ual, adorei o que escreveu e tudo por aqui! To te seguindo viu?!

Brunno Lopez disse...

Um guarda-chuva disse tanto quanto o seu texto.
Detalhado e ao mesmo tempo superficial, com uma ideia de descompromisso.
Mas envolvente em extremos, de verdade.

Esse ritmo de escrita me agrada.