quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"hello, hello, hello, how low."

kurt cobain o acordou.
pena que ele não gostava muito daquela banda, a auto-destruição que aquela canção fazia soar combinava com o ar modorrento que pairava por ali.
dormira fora, na casa desta menina com quem andava saindo havia uns meses; ou pagando, seria melhor dizer ?! ele não saberia responder. era uma ordinária; mas aqueles olhos brilhavam tão inocentemente que até poderiam o convencer que tudo o que aconteceu entre eles foi sem qualquer interesse.

o travesseiro cheirando o cigarro francês, a marca de batom vermelho no copinho de tequila, os sapatos com saltos 11 misturados pelo chão, os cachos ruivos que agora se espalhavam em seu peito nu, era tudo tão a cara desta manhosinha que agora o dominava. ele gostava dela, mais até do recomendável que um cavalheiro do tipo dele poderia gostar de uma vadia do tipo dela, mas ela nunca chegaria a ter seu coração, não; seu coração solitário pertencia àquela moça esguia e aristocrática que conhecera naquele baile requintado noutra noite.
moça que, finalmente, lhe dava uma chance.

ele sentiria saudades desta pequena encrenqueira, com toda a bagunça que ela provocava. ela nunca lhe foi digna, era inteligente mas vulgar, o tratava carinhosamente mas pérfida demais para alguém da posição dele. temperamental, alcoólatra, louca, desvairada, desesperada, com o coração cheio de buracos, ele sabia que ela só queria o seu dinheiro; era falsa, dissimulada, quente e atraente, conquistava qualquer um que quisesse. ela lhe falou de algum canalha por quem se apaixonara certa vez e até chegou a pedi-lo para não engana-la, e no ápice de um orgasmo ele até falara que estava apaixonado, mas ambos sabiam que era mentira; ela o confortava com lingeries baratas e palavras acolhedoras, e ele a pagava com dinheiro e cafés sofisticados.
e como era perigosa, esta vadia precoce; mal completados 17 anos, ela se atreveu certa vez a tentar deixá-lo por algum outro mais milionário que ele - mas certamente que ela já havia se afeiçoado aos seus modos frios demais ao ponto de abandoná-lo. e ele riu, lembrando; às vezes ela tinha alguns surtos tipicamente infantis, uma vez lhe confessara que gostava de ficar observando o mundo de ponta-cabeça, imaginando como seria a vida ao contrário, - e como tremia aquelas mãos minúsculas, sempre; únicas provas de humanidade que ela lhe dera, aquela pequena sociopata melindrosa. uma menina-mulher, largada de mal jeito na sarjeta, de alma machucada pelo descaso, aprendera a viver e se proteger, a ganhar a vida e tirar proveito de qualquer solitário desavisado feito ele, impulsiva e sarcástica, ela fazia o que queria e digno de pena era quem se atrevia a confrontar um de seus acessos de fúria. mas seu calor de espírito era incompatível com a frieza de caráter, ele sabia.
um mundo que ele teria de abandonar, para ganhar o coração de sua verdadeira amada.

os lençóis brancos encardidos, a vodka barata, a renda vermelha, a poesia ordinária, o corpo macio que cheirava a juventude inconsequente; aquela mocinha vagabunda e criança, que dormia pelada e suada, agarrada ao seu ursinho de pelúcia, ele deixaria para trás, tudo aquilo fazendo parte do passado, enquanto caminhava em direção aquela dama adorável e elegante, pura e de boa família, a única que merecia realmente seu afeto.

"você se enfurecerá:
no início foi encantador, mas agora toda essa indecência me cansou.
ligue-me para receber o seu último pagamento e ter de volta aquele livro que eu nunca terminarei de ler.
vamos ser amigos, e sempre fui ético contigo em relação ao nosso fim."

assinou, pegou sua gravata jogada na poltrona, deu uma última boa olhada naquele quarto sujo e naquela bonequinha suja que usou e jogou fora; e foi embora, batendo a porta com força ao sair.
adeus.





ela acordou assustada.
o rádio velho ainda continuava ligado, seu hálito tinha gosto de ressaca e havia um bilhete tapando suas vergonhas; os cachos ruivos, que antes se espalhavam preguiçosamente sob o corpo de seu amado, cheiravam a uma determinada pele sem perfume.
e uma lágrima preta de rímel caiu na superfície branca, exatamente em cima da assinatura.
ela se levantou, terminou de beber o uísque escocês falsificado, olhou para a chuva melancólica que agora castigava as vidraças e se pôs a rir.

ele se foi.
grande coisa. mais um que a desejou, que enlouqueceu com suas carícias pornográficas, que provou o quão provocante ela era; e que lhe pagou muito bem, que fique devidamente registrado. outro hipócrita de bosta, podre de rico e insatisfeito com sua vida solitária, somente de aparências e fria. e como ela conhecia bem o tipo; resumidamente, um homem excessivamente controlado, calculista e pervertido.

vestiu a calcinha do chão e foi atrás de uma cerveja, já que o uísque ela tratou de secar, e gargalhando, como se sua vida dependesse disso.

e depois que a cerveja acabou, se pôs a chorar, incontrolavelmente.

já sentia falta daqueles suspiros.
já morria de frio novamente.

e já começava a passar o costumeiro batom vermelho.
acabou a mordomia, a galinha dos ovos de ouro foi ciscar em outro terreno, vambora atrás de dinheiro.
secou as lágrimas e sorriu daquele jeito que só uma mulher da vida sabia fazer.
aquele sorriso amargo, cheio de lascívia, que queria prazer, dinheiro e auto-destruição, que implorava para se ter mais e mais feridas causadas por amores impossíveis.
e riu, mas uma vez; novinha e ordinária, teu corpo cheirava a uma mistura de cachaça com infelicidade, tua casa beirava a miséria e infidelidade, teu eu possuia valentia mais falsidade. e quando estes cachos se riem com tanta luxúria, todo mundo sabe; ela vai inventar mais corações de papel, ela vai acabar com mais algumas carteiras, ela vai cair no mundo novamente.

e ela vai mentir.
e ela vai fingir.
e ela vai dexa-lo ir.

desonesto e hipócrita, tão falso quanto aquela assinatura agora borrada,
"seu anjo".







para saudar nossos tempos de céus brancos e pedidos sussurrados ao pé d'ouvido.
para saudar tua falta de humanidade e sinceridade;
para saudar todo este estoque de lembranças doces e mentirosas.

11 comentários:

Yohana d'Arc disse...

Aplausos! Ótimo o texto, belissma construção, vc é muito talentosa menina!
Eu agradeço a sua visita e seja sempre bem vinda ao meu blog!

Mariana de O. C. disse...

mais uma vez, fiquei sem palavras diante das suas. parabéns, foi o melhor que já li aqui, na minha opinião.
(aproveito pra falar que eu atualizei meu blog, tem post novo la e eu me sentiria HONRADA se voce lesse e comentasse! obrigada ;*)

~*Rebeca e Jota Cê*~ disse...

Adorei!

Evelyn. disse...

Cacete, Verônica. Palavrão indigno de estar num comentário, mas ah, não achei palavra melhor.

dear sarah disse...

Caraca, desculpe o palavreado, mas tu é foda. hihi
Adorei, que texto intenso e diferente,
imaginei cada detalhe.

E outra, obrigada pelo seu carinho em meu blogue, você é muito querida pra mim.


beijos!

Ju Fuzetto disse...

Obrigada flor, pelo carinho lá no meu cantinho...


Nossa seu texto está incrível!
Dá pra visualizar cada cena!!

Tens talento guria!!
beijocas

Anng disse...

Nossa.. que incrivel.
Amei... é de tirar o chapéu :D
Beijos

. ThammyK. disse...

Texto intenso e que borbulha sentimentos aqui, dentro. É bom ler algo assim.
Parabéns, guria.

Beijoca.

Chris Ribeiro disse...

Adorei o texto, e principalmente
seu estilo.

Bjim.

@ChrisRibeiro

Marcelo R. Rezende disse...

A primeira vez que encarei sua foto, pensei: 'Essa escreve poesia'.
Por fim, descobri que não estou errado, mas a tua mão pra escrever é de uma genialidade louca. Me senti em 'Lolita', duma forma muito mais humana, tão densa quanto.

Adoro o que você escreve.

Beijo.

Anônimo disse...

E só uma vadia ordinária seria capaz de se levantar sorrindo, e continuar com sua vida.
Só elas são capazes de sorrir mesmo com seus corações esfarelados.

porque são fortes, porque são poderosas.
enfrentam a dor de frente, não se deixam abalar, e jamais se entregam as lamúrias.
se levantam, e que surpresa, la estão elas novamente, com suas lindas pernas e corpo perfeito, se aprontando para seduzir mais um homem carente e desavisado.

elas enfrentam o mundo, elas são donas do mundo.


e não há maneira melhor de descreve-las do que com esse post.
Belo post novamente querida Verônica.
Voltarei logo.