sábado, 15 de outubro de 2011

para: meu amor.

pra te entregar, agora, tudo aquilo que você diz querer saber.



claustrofóbico.

é.

eu disse que é claustrofóbico: a agonia de ter te visto sempre escapando, e agora você aí, só do meu lado. desespero cru, de doer no esqueleto.


sobre você já ter sido muitos, veja bem.


eu tentei fugir. mas de qualquer jeito o amor sempre aparece, fazendo seus nós: e inevitavelmente me prende.
são livros, na estante. cada um com seus parágrafos, cada um com o seu eco.


comecemos pelo começo.

tem um de reino, medieval. com rei, cavalos brancos e amor impossível. o primeiro: capa azul-marinho e detalhes dourados. o primeiro. é intenso e inocente feito tragédia shakespeariana. e imenso. verdadeiro. puro. tão grande que fim, até hoje, não teve. não definitivo. meu rei de coração de leão que agora é só amigo. que, de qualquer jeito, ainda não saiu do esquerdo.

colado deste vem o do sonho. sonho de agosto com céu roxo e sorrisos descobertos: noite de anjo pungente. depois o amanhecer mórbido. infernal. a guinada repentina pra queda sem cama-elástica maldita que fosse. o segundo livro da estante, bordô incômodo e grande, pesado demais pra só simplesmente jogar fora e esquecer. lacrado sempre com os círculos verdes.

em seguida, um livro preto que mais parece um buraco na estante. só com contos. curtos e secos. após ao amanhecer cruel: a tarde chuvosa e a noite escura sem estrelas nem esperança. contos alcoólicos, depravados, sem emoção. de versos mordazes, as peles frias e sem nomes, as unhas compridas e escarlates, gritando proteção suja e descabida.

depois de várias folhas sem ordem e espalhadas, finalmente há o livro carmesim. aberto. com cheiro de café e carinho. novo, maduro, confortável. escrito com duas letras diferentes, uma completando as frases da outra. que sem voz-de-epifania ou floreios, é finalmente sincero: não foge. cuida.
claustrofóbico.
um livro só, incompleto e ainda sem fim, que já ocupa a estante quase inteira. muito, de tudo o que já, um dia, eu me atrevi a desejar.
que, com despreocupados ‘eu te amos’ antes de dormir, já me ocupa inteira. completa.



e eu sou, agora, tua estante, meu amor.
que somente te guarda inteiro, pedacinho por pedacinho, nas minhas prateleiras.





de: tua V.

4 comentários:

Lucas disse...

Claustrofobia, a sensação de ter todo o ar do peito arrancado para fora, de parecer que tudo aquilo que está dentro de você simplesmente quer sair, que você está se expandindo por dentro.
Como se fosse uma claustrofobia inversa, ao invés de eu ser pequeno demais pras coisas que eu sinto, as coisas que eu sinto é que são grande demais dentro de mim. E elas só querem sair.
Eu te amo, minha V.

Fil. disse...

Amores-livros

"que sem voz-de-epifania ou floreios, é finalmente sincero: não foge. cuida."

tanta leitura que atormenta, e enfim um abrigo, um lugar para ser também história e livro na estante.

adorável. sim, sim, adorável é a palavra.

Mariana de O. C. disse...

livros. não podia ter comparação mais bonita, né? e essa carta conquista qualquer um de tão sincera, tão sutil.

Evelyn. disse...

O seu melhor texto. Sua melhor metáfora! Sem sombras de dúvida...
E o teu melhor momento. Que perdure.