segunda-feira, 25 de abril de 2011

"put another 'x' on the calendar...

escureceu cedo hoje, cinco e meia e o céu já despencava e lá fui eu correr pela casa pra fechar as janelas que antes eu tinha aberto pra um sol que hoje não teve. ainda bem. há tempos que esta cidade anda precisada de nuvens e chuva e vento e frio e gelo. o telefone tocou. atendi e nada, ninguém respondeu; insisti, alô ? alô ?, silêncio. minha cabeça já começa a querer saber, quem anda ligando aqui em casa agora ? só pode ser propaganda, espera mais um pouco e logo logo uma gravação já começa a falar, esperei, ninguém falou, nem propaganda ou gravação, quieto, então eu ouvi aquele silêncio e talvez, pensei, talvez seja alguém só querendo ouvir minha voz e que agora também ouve meu silêncio assim só querendo saber se eu estava bem, se eu estava viva, se eu o amava, esse alguém, e me deixando assim, quieta aflita só ouvindo aquele nada esperando por uma voz que não chegaria nunca aos meus ouvidos, mas esperando quieta pelo grande momento, pela grande descoberta, pelo grande alívio e cadê, cadê essa voz que não se pronuncia ? cadê esse alguém que espera pelo meu sim quando perguntar se tudo-bem-como-anda-a-vida-faz-tanto-tempo-que-não-nos-falamos, e o nada, então eu desisto e coloco o telefone no gancho e ligo a televisão no mudo e pego o livro e ligo o som e leio. e não leio. quem, quem era no telefone ? não tinha ninguém em casa, e então olhei pro teto e lembrei de como andava minha vida, mudada, caso o alguém perguntasse, anda mudada, eu responderia só mudou, meus pés nem doem mais em cima daqueles sapatos vermelhos, e eu vou saber que ele também responderá com mudanças, emprego novo, roupas novas, amigos novos, vida nova, outro eu, talvez não vá me reconhecer se me ver andando por aí na rua, concordarei dizendo tempos difíceis foram aqueles, trouxeram peso tranqueira sofrimento, lembra de como eu sorria ? não sorrio mais, não daquele jeito, não de alma tão limpa transparente e inocente, e aliás nem a alma é mais a mesma, é, tempos difíceis foram aqueles..., e o alguém vai hesitar, nunca soube lidar com confissões como aquela tão cheia de sentimento íntimo, a voz constrangida vai se justificar liguei só pra saber como você está nada demais não senti saudade nem tesão só a televisão que anunciou um filme com o teu nome, fiquei curioso, só isso, mas deixa eu desligar tô com pressa, tchau e o vices & virtues terminou de tocar. droga. nem prestei muita atenção, é assim mesmo, com cds novos eu demoro mesmo pra me acostumar com a batida e o ritmo e o estilo novos que eles nos impõe, foi presente sabe, presente de aniversário, mas acabou e eu preciso escolher outro se não quiser que o silêncio me engula novamente, quem sabe the libertines ? doherty às vezes parece que me compreende, i know you lie but i'm still in love with you uh oh oh, e é, eu realmente tenho virado um além do ponto irritante naquela conversinha de sempre batendo numa porta que ninguém atende, e cadê o pó de café mesmo ? aí quem sabe, nunca se sabe né, toque a campainha ao invés do telefone, e eu vou abrir a porta e o café vai estar pronto e o sorriso vai estar posto e um abraço quente vai envolver quem quer que seja.

porque, seja com medo da ventania da chuva ou cantarolando the calendar, inevitável e incontrolavelmente, eu espero sempre.



(ocorrido e escrito lá pelo começo de abril e esquecido entre outros escritos e agora lembrado e desenterrado.)

3 comentários:

Franck disse...

Eu tbém espero sempre...desde um fim de sábado que um moço que tem pássaros amarelos rumou ao sul me deixando com os olhos como se tivessem areia...
Bjs*

Isabela Nunes Costa disse...

Teus textos são incríveis. E me dão a sensação de que talvez eu me torne uma das garotas dos seus textos, daqui a uns dois ou três anos.
Acredite-me, assusta bastante, mas também alivia. Por mais que a maioria delas tenham uma vida confusa e com toques de melancolia elas existem, são descritas. E foi com muito dos seus textos que eu finalmente pude enxerga-me em um intervalo de tempo maior que dois meses.
E eu acho que esse meu comentário está parecendo um tanto quanto desesperado,mas obrigada por escrever! Ler um texto seu sempre me faz bem, independente do quão trágico o final possa vir a ser!

Mariana de O. C. disse...

the calendar matou! ;~ eu amo quando voce faz isso, vai botando as coisas na nossa cara e faz a gente acompanhar incessantemente. e essa sensação horrível de mudar e não perceber, de não reparar na batida nova, anda comigo também.