quarta-feira, 28 de setembro de 2011

para meu fazedor de arranha-céus.

(pra ser lido ao som de Welcome Home - Radical Face.)


assim.
chovia quando eu cheguei lá.
e eu fugia da tempestade fazia muito tempo.
cansada de guerra, cansada de frio, e a casa simplesmente apareceu, imponentemente majestosa. não exatamente grande, mas daquelas que você só se imagina admirando-a do lado de fora, nunca se enxergando lá dentro.
entenda, eu nunca pretendi entrar. mas é que chovia tanto. e ela estava vazia, destrancada, tão insuportavelmente convidativa. e eu já estava exausta de sempre ficar do lado de fora.

a casa tinha cheiro de coisa viva, coisa boa; eu já estava tão acostumada com vento gelado, que me encolhi de medo do calor dali de dentro. explosivamente aconchegante, o chão e as paredes de madeira grossa, estrutura forte – pairava uma tranqüilidade de igreja entre toda aquela madeira e imponência: era feito abraço de pai depois do pesadelo. eu ficava risivelmente pequena ali. e genuinamente protegida.
numas tréguas da chuva, das janelas grandes e sem cortinas, sempre vinham alguns feixes de luz do sol. elas transpassavam o vidro e batiam na madeira. lá dentro se espalhavam e, aqueles raiozinhos tímidos, brilhavam por todo o interior e viravam uma explosão de luz. a casa se empertigava inteira pra brilhar. ria-se com satisfação, vaidosa, provavelmente se afogaria se visse seu reflexo na água. era irritante. quando isso acontecia, eu me enraivecia. ficava lívida, gritava, meu próprio ego orgulhoso não suportando toda aquela arrogância, querendo sair dali de dentro o mais rápido possível. só que quando eu tentava, não conseguia. a casa trancava sua portas e dizia que ela já era minha. que eu já era dona daquele teto. que meu dever era ficar e cuidar de tudo. e eu dizia que não, não tinha escolhido ser dona daquilo tudo. aquela casa era grandiosa demais pra mim. mas ela dava um jeito de me acalmar. era incrível. aquele lugar me distraia, até mesmo quando eu não queria. quando eu dava por mim, já estava deitada numa cama de dossel, relaxada e contente, a mente leve, filosofando qualquer coisa enquanto Chico Buarque ecoava entre as paredes.
e meio que por curiosidade, eu subi as escadas. deixei a sala de visitas e fui mais a fundo. quase que sem querer, abri as portas, vasculhei os guarda-roupas, desvendei cada cantinho. conheci os quartos mais íntimos, onde não existia luxo ou vaidade. só madeira e conforto. e eu sorria pras paredes e elas, de algum jeito, me abraçavam. me guardavam nas asas e diziam pra eu não fugir mais. e assim eu me despi do escudo, arma e armadura. mesmo relutante, a casa me ganhou. eu fingia mal-humor, mas não consegui controlar o amor que já borbulhava imenso dentro de mim.
e tinha lá vezes que batiam na porta. duas, três vezes. eu pedia pra abrir, mas a casa se recusava. dizia que ninguém entraria ali, repetia que ela era só minha. e eu, insegura, insistia. falava que deixaria quem quer que fosse entrar, pegaria minhas coisas e iria embora; voltaria se a casa ficasse vazia novamente. mas ela respondia com carinho. me trancava ali dentro e me fazia sorrir.

era só difícil demais acreditar que todo aquele lugar era meu. só meu.

e sabe, estou te escrevendo dele. encostada num canto, sentindo o cheiro calmante da madeira. ainda chove, sabe. provavelmente não parará nunca de chover. lá fora sempre será um caos. de qualquer jeito, eu vou aproveitar minha estada aqui. não sei te dizer de quanto tempo. ninguém nunca sabe, na verdade. perdi o medo. só sei agora que seria insanidade eu sair daqui. essa casa me aquece. me protege da chuva e do frio. me faz feliz, sabe. muito feliz. e eu sei que ela gosta que eu more por aqui. pelo menos um pouquinho.

e se quiser me mandar a resposta e não saber aonde a casa fica, despreocupe-se. vai ali do lado esquerdo do teu peito. eu vivo ali agora, na casa de madeira. e vou ficar durante muito tempo.

2 comentários:

Mariana de O. C. disse...

tirou o fôlego, mano. ta muito muito maravilhoso e espontâneo! tomara que esse fazedor de arranha-céus fique aí por muito, muitooo tempo!

Isabela Nunes Costa disse...

Podia ter interpretado a casa como alguém que é quase um anjo?
Pq foi assim q eu enxerguei, e achei lindo, leve e bonito.
Foi a alusão mais sincera e verdadeira que eu, felizmente, li.
Vou reler, reler e reler. Porque tuas palavras ficaram aqui comigo, junto aquela esperança de que existe algo bonito, ainda sem nome, pronto para acontecer mesmo a quem não tem plena certeza.